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Dica 04 · IA na prática

O segredo não é um prompt perfeito. É saber trabalhar com a IA.

Uma boa conversa pode ajudar a organizar ideias, mas o resultado precisa ser útil. Veja como orientar, testar e conferir o trabalho com IA.

Uma das coisas mais importantes que aprendi trabalhando com inteligência artificial foi perceber que não preciso saber exatamente o que pedir para começar.

Às vezes, tenho uma ideia muito clara na cabeça, mas encontro dificuldade para explicar o que imagino. Consigo perceber quando alguma coisa não ficou boa, mas nem sempre sei dizer o que precisa mudar.

Foi conversando com a IA que descobri uma maneira diferente de desenvolver essas ideias.

Mas também aprendi outra coisa: uma conversa longa não significa necessariamente que estamos avançando.

A IA pode interpretar errado, concordar demais ou transformar um problema simples em uma solução complicada.

Por isso, hoje procuro trabalhar de uma maneira diferente. Começo com o que sei, deixo a IA ajudar a organizar o restante e, principalmente, procuro estabelecer o que realmente quero alcançar.

E você pode fazer o mesmo, mesmo que esteja começando agora.

1. Pesquisar é bom. Pesquisar considerando seus gostos é ainda melhor.

Imagine que você queira assistir a um filme.

Uma pesquisa por "melhores filmes de 2026" no Google pode apresentar críticas, avaliações e listas de recomendações.

Mas será que aqueles filmes combinam com você?

No ChatGPT, você pode começar assim:

Quero assistir a um suspense. Gosto de investigação, histórias inteligentes e boas reviravoltas. Não gosto de terror sobrenatural. Me recomende cinco filmes e explique por que escolheu cada um. Se precisar, faça algumas perguntas para entender melhor meu gosto.

Agora você tem uma pesquisa orientada pelas suas preferências.

Pode dizer quais filmes já assistiu, quais adorou e quais achou ruins. Pode pedir opções menos conhecidas ou verificar onde estão disponíveis, desde que a IA consulte informações atualizadas.

E, com o tempo, essas preferências podem ajudar em novas recomendações, conforme os recursos de memória e o contexto disponíveis.

Isso não significa que o Google seja menos útil. Os próprios buscadores também oferecem recursos de IA conversacional.

A diferença que quero destacar é a possibilidade de aprofundar uma pesquisa sem precisar começar do zero a cada nova pergunta.

E essa lógica funciona para escolher filmes, organizar viagens, comparar produtos ou pesquisar ferramentas para o trabalho.

2. Não sabe explicar sua ideia? Peça ajuda para organizar.

Imagine que você queira melhorar a maneira como recebe pedidos de clientes.

Você poderia pedir uma planilha, procurar um aplicativo ou até pensar em desenvolver um sistema.

Mas talvez ainda não saiba qual dessas soluções realmente precisa.

Experimente começar assim:

Quero organizar melhor os pedidos dos meus clientes. Hoje recebo informações por mensagens e tenho dificuldade para acompanhar o andamento. Meu orçamento é limitado. Me ajude a descobrir a solução mais simples. Faça no máximo três perguntas importantes e depois apresente uma proposta.

Perceba que você já forneceu algumas informações importantes: o problema, o contexto e uma restrição.

A IA pode ajudar a completar o que falta.

Esse é um dos hábitos mais úteis que desenvolvi: pedir à própria IA para melhorar meus pedidos.

Você também pode escrever:

Vou explicar uma ideia do meu jeito. Organize o que eu disser, identifique informações importantes que estão faltando e prepare um pedido mais completo. Não complique o que pode ser simples.

Não existe necessidade de decorar dezenas de prompts.

Mas existe uma habilidade que vale desenvolver: aprender a informar o que você quer, qual é a situação, quais limites precisam ser respeitados e como espera receber o resultado.

E não precisamos passar uma hora respondendo perguntas. Se alguma informação for realmente indispensável, a IA pode perguntar. Se não for, pode apresentar uma hipótese razoável, identificá-la e avançar.

3. Crie projetos especializados para assuntos diferentes

Essa é uma das possibilidades que considero mais interessantes para quem utiliza IA com frequência.

No ChatGPT, existe o recurso Projetos, que permite reunir conversas, arquivos e instruções sobre um mesmo assunto.

Imagine ter um projeto dedicado a encontrar boas ofertas no Mercado Livre, considerando seu orçamento e suas marcas preferidas.

Outro poderia ajudar você a explorar cortes de cabelo, comparar referências e entender quais estilos combinam com suas preferências.

E outro poderia ser dedicado à organização das suas vendas.

Cada projeto reúne um contexto próprio, evitando que você precise explicar tudo novamente a cada conversa.

A própria IA pode ajudar você a criar o projeto

Vamos imaginar que você queira montar um projeto chamado Wilson Vendas.

Em uma conversa comum, escreva:

Quero criar um Projeto no ChatGPT chamado Wilson Vendas. Ele deve me ajudar a analisar preços, produtos, atendimento e oportunidades comerciais. Me faça as perguntas necessárias e depois prepare as instruções que devo colocar na configuração do projeto. Também quero saber quais informações e arquivos preciso adicionar para começar.

A IA pode ajudar a definir os objetivos, organizar as instruções e preparar o conteúdo para você copiar.

Depois, basta criar o Projeto, adicionar essas orientações e incluir os materiais relevantes.

Mas o mais interessante começa agora.

Imagine que você envie uma planilha com seus produtos, preços e custos.

Em vez de simplesmente pedir uma análise genérica, experimente:

Analise esta planilha e identifique quais produtos apresentam as menores margens. Mostre os cálculos, indique quais custos foram considerados e destaque as informações que faltam para calcular o lucro corretamente. Não invente valores.

Agora o Wilson Vendas tem uma tarefa concreta.

Se a planilha não apresentar taxas, impostos ou despesas importantes, por exemplo, a IA deve apontar essa limitação antes de recomendar alterações nos preços.

Criar um Projeto não transforma a IA automaticamente em um especialista nem garante análises corretas.

O que realmente melhora o trabalho é combinar informações relevantes, boas instruções e critérios para avaliar os resultados.

Isso também pode ser útil em empresas, com espaços dedicados a diferentes atividades, desde que os dados sejam compartilhados somente em ambientes autorizados.

4. Trabalhe com documentos, mas aprenda a conferir

Outra possibilidade prática é analisar arquivos diretamente na conversa.

Imagine receber um contrato de quinze páginas.

Você pode anexar o PDF e pedir:

Identifique minhas principais obrigações, os prazos, as multas e as condições de cancelamento. Para cada informação, indique a cláusula correspondente e mostre o trecho relevante. Separe o que está escrito no contrato daquilo que é sua interpretação.

Essa última parte é especialmente importante.

A IA pode ajudar a localizar informações e explicar termos difíceis, mas também pode interpretar cláusulas incorretamente, ignorar ressalvas ou deixar passar alguma informação.

Por isso, o próximo passo não deveria ser perguntar se você pode assinar.

Seria algo como:

Quais pontos estão ambíguos? O que não foi possível confirmar? Prepare perguntas que eu deveria esclarecer antes de tomar uma decisão.

Depois, confira os trechos no documento original. Para decisões jurídicas relevantes, procure orientação profissional.

O mesmo princípio vale para planilhas, relatórios e propostas comerciais.

Utilize a IA para facilitar a análise, não para substituir a verificação.

E tenha cuidado com documentos pessoais, informações de clientes e materiais confidenciais. Antes de enviá-los, verifique se o compartilhamento é permitido e se a ferramenta oferece as proteções necessárias.

5. Uma boa ideia precisa sair da conversa e enfrentar a realidade

Essa foi uma das lições mais importantes que aprendi desenvolvendo projetos com IA.

É relativamente fácil passar horas imaginando funcionalidades, discutindo possibilidades e criando planos cada vez maiores.

O difícil é transformar tudo isso em algo que realmente funcione.

Por isso, quando tenho uma ideia nova, procuro investigar sua viabilidade antes de começar a construir.

Você pode fazer o mesmo:

Tenho uma ideia de projeto. Quero que você avalie se ela é viável, pesquise soluções semelhantes e identifique dificuldades. Antes de propor algo complexo, verifique se existe uma alternativa mais simples. Depois, me ajude a definir um pequeno teste para descobrir se vale a pena continuar.

Imagine que a ideia seja criar um sistema para organizar pedidos.

Talvez não seja necessário desenvolver um aplicativo inteiro.

Uma planilha bem organizada, utilizada durante alguns dias, pode ajudar a descobrir quais informações realmente precisam ser acompanhadas.

Se funcionar, você terá aprendido alguma coisa. Se não funcionar, também terá informações para corrigir a proposta antes de investir mais tempo ou dinheiro.

O importante é estabelecer um resultado que possa ser observado.

E vale aplicar a mesma lógica às respostas da IA:

Essa proposta realmente resolve meu problema? O que ainda precisa ser testado? Existe alguma coisa que estamos complicando sem necessidade?

Um plano bem escrito não é a mesma coisa que um projeto bem executado.

6. Com o tempo, a IA pode se adaptar melhor ao seu jeito

Existe outro aspecto da minha experiência que considero interessante: a continuidade.

Depois de muitas conversas, fui aprendendo a explicar melhor o que preciso e a estabelecer como gosto de trabalhar.

Descobri, por exemplo, que em projetos visuais consigo avançar melhor quando apresento referências e comparo alternativas, em vez de tentar descrever cada detalhe.

Também passei a exigir respostas mais críticas, com justificativas, alternativas e informações verificáveis.

No ChatGPT, você pode registrar preferências nas Instruções personalizadas, dentro das configurações de Personalização.

Uma orientação simples poderia ser:

Prefiro respostas diretas e práticas. Quando faltar uma informação importante, faça perguntas. Não concorde automaticamente comigo. Evite soluções complicadas quando existir uma alternativa mais simples e deixe claro o que precisa ser verificado.

Além disso, quando a Memória está ativada, o ChatGPT pode utilizar informações relevantes de conversas anteriores e outras fontes disponíveis.

Isso permite uma experiência mais personalizada, embora não signifique que a IA memorize tudo ou compreenda suas preferências perfeitamente.

Eu gosto de pensar nisso como uma relação de trabalho que vai sendo construída.

Você aprende a orientar melhor a ferramenta, e ela pode aproveitar o contexto disponível para oferecer respostas mais adequadas.

Conforme ganha experiência, também pode explorar recursos e conceitos mais avançados, como Skills, MCP e RAG, que ajudam a organizar métodos de trabalho, conectar ferramentas e utilizar fontes específicas de conhecimento.

São possibilidades que merecem matérias próprias. Não é necessário conhecer tudo isso para começar.

7. Não tenha medo de discordar da IA

Talvez essa seja a orientação mais importante de todas.

Nem sempre a primeira resposta será boa.

Já recebi sugestões que pareciam interessantes, mas eram genéricas, complicadas demais ou diferentes do que eu precisava.

Aprendi que não basta aceitar uma resposta apenas porque ela está bem escrita.

Se algo não fizer sentido, questione:

Por que você recomenda isso? Quais são as alternativas? O que está confirmado e o que você está supondo?

Se o resultado não ficou bom, explique o motivo.

Se a solução ficou complicada, peça uma versão mais simples.

E se a IA estiver conduzindo a conversa para um caminho que não ajuda, volte ao objetivo inicial.

Ela pode contribuir bastante para desenvolver ideias, mas a responsabilidade de avaliar o que faz sentido continua sendo sua.

A melhor maneira de aprender é começar com algo real

Se você quer aproveitar melhor a inteligência artificial, escolha alguma coisa que realmente precisa resolver.

Pode ser encontrar um filme, comparar produtos, organizar informações, analisar um documento ou desenvolver uma ideia que está há tempos na sua cabeça.

Comece explicando o que sabe. Peça ajuda para estruturar o restante. Estabeleça o resultado esperado e confira o que foi produzido.

Com a prática, você vai descobrindo quais orientações funcionam melhor, quando vale aprofundar uma conversa e quando é hora de parar de planejar e começar a executar.

Você não precisa aprender a falar a linguagem da inteligência artificial. Pode começar falando a sua.

Mas existe um passo além disso.

Conversar com a IA é fácil. Aprender a transformar essa conversa em algo realmente útil é a habilidade que vale desenvolver.